Discos | Música pra ouvir Sentado
Em 15 anos e quatro discos de carreira, o septeto Arthur de Faria & Seu Conjunto sempre tocou temas instrumentais, mas nunca tinha pensado um repertório inteiro sem palavras. Foi só quando convidada para o projeto Instrumental Sesc Brasil, em São Paulo que a banda se deu conta do quanto isso faria sentido. Daí, quase como um contraponto a seu trabalho anterior, Música pra Bater Pezinho, nasceu o quinto CD, Música pra Ouvir Sentado.
Mas até serem contemplados no edital 2010 da Natura Musical, passaram-se quatro anos de intensivo trabalho. Selecionando repertório, arranjando, experimentando-o em shows. De 20 e poucas músicas, 12 se acomodaram no balaio-conceito: um trabalho universal porque muitíssimo ligado a Porto Alegre, no tanto de Brasil meridional que há nessa cidade eqüidistante geografica e culturalmente das duas maiores metrópoles do hemisfério sul: São Paulo e Buenos Aires.
O resultado não poderia deixar de ser um trabalho de fronteira. Fronteira entre o erudito, o popular e o jazz. Fronteira entre Brasil, Argentina e Uruguay. Fronteira como sempre foi o trabalho de uma banda multicultural como essa. Um saxofonista e jazzista (Sérgio Karam), um fagotista free e contemporâneo (Adolfo Almeida Jr), um trombonista erudito (Julio Rizzo), um guitarrista roqueiro (Marcão Acosta), e um baixista e um baterista (Clóvis Boca Freire e Diego Silveira) que vão do funk à música orquestral. E o compositor e pianista Arthur, autor de dezenas de trilhas para cinema, teatro e dança, produtor de dezenas de discos, autor de meia dúzia de publicações sobre a música popular de seu estado.
Pra completar o conceito: um produtor paulista - Mauricio Pereira, que assina o trabalho junto com o engenheiro de som do grupo, Gustavo Breier. Um jovem gênio bandoneonista argentino: Martin Sued. E um dos maiores bateristas/percussionistas do Cone Sul, o uruguaio Osvaldo Fattoruso (ex-The Shakers e OPA, as duas principais bandas da história uruguaia). Como cereja do bolo, a velha amiga e parceira de tantas jornadas: Cida Moreira.
No repertório, basicamente de Arthur, tangos, habaneras, milongas, candombes... mas também uma valsa-jazz do Marcão, um ska co-escrito pelo Julio e o Boca, um tango “alemão” parceria com o Adolfo. E até um blues... mas em forma de sonata. Tudo com aquela pressão e intensidade tão características desses doidos que, mais que uma banda, são uma usina de processamento. De dados.
E masterizado em Abbey Road!
Faixa a Faixa
- Solostrágicos (2010) – Concebido originalmente (por Arthur) como um tema balcânico, para o espetáculo teatral “Solos Trágicos”, foi rearranjado para o grupo a partir da idéia do baixista Boca Freire de convertê-lo em um tango alemão dos anos de 1920. Adolfo compôs uma terceira parte, em marcha de carnaval, e escreveu o arranjo de sopros. Cida Moreira foi chamada para aumentar o clima Kurt Weill da segunda parte, um bolero quase calipso.
- Ciranda da Ajuda (2006/2010) – Composta para o longa-metragem em plano seqüência “Ainda Orangotangos”, onde era tocada em cena pela banda, o que era originalmente uma milonga foi fundido com o ritmo nordestino da ciranda. Ao que parece, deu certo. O lírico improviso de fagote avisa: sim, há um fagotista improvisador nessa banda. Uma jóia rara.
- Contrabandeada Milonga (2002) – Milonga campeira, mas tratada tanto com elementos tanto do rock quanto dos arranjos de sopros que Gil Evans escrevia para Miles Davis. Tema escrito especialmente para brilhar o trombone único de Julio Rizzo, que oscila disciplina erudita de sinfônica com um lado muuuito bagualudo.
- Habanera Pré-Datada (2000) – Do curta “Canarinhos Gaúchos”. A Habanera é uma das mães do tango, do choro e do maxixe. Essa tenta conciliar o clima das habaneras dos século XIX com um certo espírito de jazz europeu. Esta nela o único solo de piano do disco, mínimo e sensível.
- Osvaldo y Astor em Venus (2006) – Osvaldo Pugliese, Astor Piazzolla: dois dos maiores gênios renovadores do tango. Aqui homenageados num arranjo muitíssimo brasileiro e bastante rocker. Como se os dois fossem parar em Venus, levados por uma nave especial que só tocasse System of a Down. De brinde, uma breve fuga a 3 vozes no intermezzo.
- Valsa para Karina (2009) – Um singela valsa jazz com mais um arranjo de sopros de inspiração gilevansiana.
- Tango do Morto (1990) – Uma das duas regravações do CD “Meu Conjunto tem Concerto”, terceiro trabalho da banda, gravado originalmente junto a uma orquestra de cordas. Aqui, o arranjo é mais enxuto e incendiado pela bateria e a percussão de Osvaldo Fattoruso. A parte central, que é um candombe uruguaio, voa soberana conduzida pelo cara que inventou a levada de candombe para a bateria. Na terceira parte, um tango, é a vez do argentino Martin Sued lucirse ao bandoneon.
- Tango Brasileiro (arranjo de 2009) – Composta por Octavio Dutra, gaúcho campeão nacional de direito autoral em 1914. O original era para violão solo, e foi rearranjada para o longa “Espia Só”, sobre a vida e obra de Octavio, ainda em fase de finalização. No filme, a banda toca essa – e outras pérolas – em cena.
- Prenda Minha (arranjo de 2010) – Uma das raríssimas páginas do folclore gaúcho do sec XIX que sobreviveu, aqui recebe um arranjo absolutamente “desconstruidor”: politonal, polirritmico e variando entre o funk, o reggae e o erudito da primeira metade do século XX.
- Trôpego-Blues (1987) – Escrita por Arthur aos 16 anos, como exercício de composição, é uma sonata clássica, com todas suas regras, só que em ritmo de blues. Sim, tem beeeem mais que 3 acordes. Há 25 anos que o Marcão faz o solo de guitarra. Mas agora é antecipado por um belo improviso em clima cool do saxofonista Karam.
- Chama Monga (1987) – Misturando a pulsação 6/8 do chamamé com o 4/4 da milonga, daí o título cretino. É o outro tema gravado originalmente em “Meu Conjunto tem Concerto”, mas agora em versão turbo. Toda a música é estruturada a partir do primeiro grupo de 6 notas. Em infinitas variações e um intenso trabalho de contraponto que exige toda a virtuose possível, principalmente dos sopros. Tudo introduzido por um coral, seguido por uma fuga a 4 vozes. E incendiado pela bateria polirrítmica de Diego Silveira.
- A Última Estrada da Praia (2010) – Escrita para o longa de mesmo nome, tem o clima festivo e estradeiro perfeito pra se terminar um disco por vezes tão denso como esse. Destaque especial para mais uma das tantas geniais linhas de baixo criadas por Clóvis Boca Freire, um mestre.